calendário íntimo


Num mundo em que somos intimadas a viver um calendário desconectado do Universo, que foi totalmente criado por um grupo de homens (sim, um seleto grupo do sexo masculino), não fico surpresa em ver o desequilíbrio físico-emocional em que vivemos.
 
Só poderia dar no que deu: “somos seres desconexos do nosso próprio ser”.
Que redundância! (já falei que gosto de ser redundante)
 
Quando me vi tendo que largar tudo (mas tudo mesmo!), e voltar rastejando, ferida até a matilha, não foi fácil. Cheguei de orelha baixa, olhos secos, pele ressecada... cauda por entre as pernas, doente e com uma dor na alma de arrancar o coração.
 
Como uma integrante da matilha que fugiu e se aventurou pelo mundo sombrio sem ouvir a sabedoria das Velhas Lobas, fui recebida sob intrépidos olhares lupinos que faiscavam de indignação.
Fui acolhida com o mais sublime e selvagem dos sentimentos: a Feroz Compaixão*
 
Respirei fundo e pensei, “vou abaixar ainda mais minhas orelhas, enfiar ainda mais a cauda por entre as pernas e usar minhas técnicas, meditações, relaxamento (etc) que aprendi ao longo dos meus Sete anos nas Montanhas.”
 
(risos) Hoje já me permito rir dessa arrogante ingenuidade ...
 
Quando você retorna a uma caverna de Lobas, eu afirmo que toda a sua vida é descontruída. Tudo que você pensava ser o caminho é devastado da sua alma.
 
Elas são deliciosamente cruéis, desérticas e insaciáveis. Já nem me lembrava de que um dia eu fora assim.
Vi que tudo que busquei la fora há muito se encontrava dentro de mim.
 
Um vento forte que sacudiu minhas células doentes e as reestruturou de acordo com o tempo.
 
O Tempo.
 
Reclusa de tudo e de todos, eu precisei reaprender a me autoguiar.
 
Por mais que eu tivesse estudado o calendário Maia (do qual me identifico muito), de sempre celebrar as estações, louvar as fases da Lua e honrar meu sangue mensal, nitidamente  algo estava desnorteado dentro de mim.
Só assim percebi que a procura  externa implica a caminhar na mesma linha, no mesmo tempo com o despertar interno. Se não despertamos, não temos como assimilar nenhum conhecimento.
 
Corpo e Alma começaram a caminhar juntos, num leve trotar.
Um ciclo interno que independe do lá fora.
 
Um calendário Íntimo, só meu.
 
Minhas estações... minhas Luas.... meu Universo.
 
E sigo-me em frente... acompanhada do uivo da Loba Matriarca , “quem tem que amar você é você mesma. Aprenda isso enquanto tem seus dentes.”
 
 
 
                                                              
Ate a próxima Lua
 
Beijos uivantes,
 
 
 
*Feroz Compaixão é uma das 21 Qualidades de Tara (Buda Feminino Tibetano). 
Adornada com caveiras, três olhos vermelhos,
disparando raios e trovoes
pelas palmas das mãos
e pela sola de seus pés.
Este é o aspecto da Mãe colérica. Ela não fala baixinho quando suas crianças estão embarcando numa viagem de autodestruição. Ela grita. Esta ferocidade não deve ser mal-entendida, Tara nunca é movida pela raiva. Sua cólera é um artifício para despertar, para educar, para proteger, para salvar. Nunca para fazer mal, ferir, confundir, diminuir. E uma ação compassiva para despertar a consciência.
 

a Linguagem da Alma

Os sonhos coexistem com a "realidade", saber dar atenção a eles é o que faz diferença em nossas vidas.
Gosto de sonhar. É através deste canal que converso melhor com minha alma.
​"O sonho não é somente uma fonte valiosa de informações, mas também um modo eficaz de educação e tratamento.", já nos dizia Jung.​



Roberto Gambini (2000), psicólogo e analista junguiano, propôs aos educadores (séries iniciais) a trabalhar com o relato de sonhos em sala de aula.
Fico imaginando a delícia regada a doidura feliz quando as crianças ouviram da sua professora, "o que você sonhou hoje?".

Um espaço de sonhos, um momento para trazer a alma para o mundo. 

Lembro-me que quando cheguei ao Grupo de Contação de Histórias na Igrejinha (UFSC) numa manhã animada de sábado. Só depois percebi que todos que participavam daquele momento deveria compartilhar uma história. E nada na minha cabeça passava...

Foi quando eu pensei, "vou contar um dos meus sonhos".
Ao terminar meu relato onírico, a coordenadora do grupo me direcionou seus olhos profundos, daqueles que enxergam nossas vísceras e sorriu. Contou-nos que os nativos da Nova Zelândia mantém uma linda tradição: A contação dos Sonhos. Em uma terminada Lua, eles se encontram para compartilhar seus sonhos...a linguagem da alma.

Tive a sorte de nascer (prefiro dizer escolher) numa família que prioriza os sonhos. A pergunta "o que você sonhou?", florescia nosso café da manhã. E tínhamos uma regra: respeitar e ouvir atentamente o sonho da outra.  Sonhos exigem boas escutadeiras.

E levei isso comigo...

Tem coisa mais instigante quando alguém nos diz, "sonhei com você."

"Pensei", "me lembrei de você"... nos deixa feliz...
Mas quando alguém diz, "sonhei com você", sempre nos provoca uma sutil sensual narcisista curiosidade.
Podemos controlar (tentar ao menos) o ​que pensamos, mas não o que sonhamos.


Nos sonhos, a alma é livre para procurar o que lhe faz feliz.

"Somos feitos da mesma substância dos sonhos"
                                             Shakespeare





beijos oníricos