As Guardiãs da Ilha



O Artigo abaixo foi especialmente escrito para o Jornal SER MULHER, coordenado por Mônica Giraldez  e Nanda Pedrotti .

Você pode encontrá-lo em vários pontos da Grande Florianópolis.
Para mais informações, contate (48) 99106.9450

Uma ótima leitura!


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As Guardiãs da Ilha 



Mas algo me dizia que as mortes das Baleias
era um dos principais motivos para que o restante dos Guarani
tivesse fugido para fora da Ilha.
Eles explicam que as Baleias são Guardiãs da memória da Terra.
Matá-las leva o homem ao esquecimento de si,
do seu registro na Terra, da sua história.
E quem não conhece a sua história, fica perdido do espírito.
(Filhas da Lua, 2017)





Quando eu estava pesquisando para a criação do meu segundo livro, Filhas da Lua, um forte chamado das Baleias veio até mim.

Na época, há seis anos, lembro-me de que minha amiga Elaine trouxe-me o relato de um pesquisador que informava o real motivo do povo Carijó, do tronco Tupi Guarani, ter se afastado da Ilha de Santa Catarina, da Terra Meiembipe.
Não havia tantos mais Vicentistas na Ilha, que os surravam, escravizavam e levavam para longe de sua terra.
Porém, havia algo muito maior, uma dor insuportável que os faria sair e se refugiarem próximos às Montanhas do outro lado do continente; não para fugirem, mas para poderem realizar seus rituais de amor e perdão às Guardiãs da Terra: as Baleias.

Quando os açorianos anunciaram as construções de Armações dando início a pesca das Baleias, os Carijós (Guarani) não aguentaram tamanho sofrimento. As tentativas de diálogos foram em vão. Tristes e perplexos com tamanha crueldade, não entenderam como uma relação amistosa entre eles havia chegado a esse ponto. 

Os açorianos chegaram extremamente debilitados da longa viagem até a Capitania de Santa Catarina. Aqui, as sementes de trigo que a Coroa portuguesa havia fornecido, não vingava e tanto mais outras coisas. Foi através do espírito compassivo e acolhedor dos Carijós que os açorianos aprenderam a como ler essa terra. Foram lhes ensinados sobre locais de pesca, o quê e onde plantar, criação de engenhos de cana e farinha, construção de canoas, confecção de cestos e tudo mais.
Ao negarem os apelos dos Pajés para a não construção das Armações de pesca às Baleias, os açorianos macularam a Ilha.

Para os Guarani, estava quebrado um encanto e profanado a condição de que a Ilha era a terra abençoada: A Terra sem Males.
Para os Guarani e quase toda a nação dos Povos Nativos do mundo inteiro, as  Baleias são as Guardiãs da Memória da Terra e de todo Universo. 
Enviadas pelo Povo das Estrelas, têm como missão guardar os registros da memória deste Planeta, bem como de toda a humanidade.
Junto com as Baleias, os Golfinhos são os Mensageiros desses registros.

O livro Filhas da Lua, a continuação do romance Brumas da Ilha, traz essa passagem com o intuito de os leitores terem consciência sobre essa história.
As Armações construídas, entre elas a Armação da Lagoinha, fizeram da Praia do Matadeiro, termo originário de Saco do Matadouro, ser o local que se fazia o abate de Baleias na Ilha.

Durante os anos de 1749 a 1796, no qual a Coroa Portuguesa tinha o direito ao monopólio dessa atividade, em torno de 2800 Baleias foram mortas para a produção de pipas de azeite (óleo de Baleia), bem como o aproveitamento de carne, gordura e barbatanas, fomentando a economia do povo litorâneo. Isso significa que nesse período, em torno de 60 Baleias foram mortas por ano, esquartejadas nas Armações do litoral catarinense no inverno do sul do Brasil.

As Baleias Franca deixam as águas geladas da Patagônia e vêm dar à luz e amamentar seus filhotes na costa catarinense, no período que vai de julho a outubro.

Sim, este é o momento de elas darem à luz aos seus filhotes e amamentá-los até que se tornem fortes o bastante para fazerem a viagem de volta. Não precisamos ter uma imaginação fértil para saber que vários filhotes de baleia morreram de fome, pois o abate era preferencial em Baleias adultas.

Há alguns que irão defender esse episódio alegando que os açorianos precisavam disso para expandir-se economicamente.

Não quero e não vou trazer essa questão. Sinto que nesse momento, preciso sim olhar para meu povo, meus antepassados açorianos com sentimento de amor e transmutação de dor. Não me convém julgar, mas me convém amar e pedi perdão às nossas Guardiãs.

O pedido de perdão não é para as Baleias (Elas não precisam disso), é para o nosso ato não tão glorioso do passado; é por mim; é por meus ancestrais.
Peço gentilmente que cada um que esteja lendo essa mensagem, olhe-se para dentro, escute sua fonte, veja-se nessa história e comece a sentir as Baleias com um olhar ainda mais de gratidão e amor.

A cada ano mais e mais Baleias visitam a Ilha. Gostaria muito de ver o nome Matadeiro e Armação sendo alterados para “Santuário das Baleias” ou algo semelhante.
Quem sabe um dia isso vira um projeto...  Quem sabe... Por enquanto, o pedido de Sinto muito e gratidão é o que meu coração anuncia.


Sinto muito e Gratidão !






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Beijos em brumas 

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